Literatura

 COISAS E GENTE DA VELHA MACAÉ  –

(CRÔNICAS HISTÓRICAS)

A. A. PARADA

 

“Todos cantam sua terra,

Também vou cantar a minha…”

 

UMA HEROÍNA DA TRADIÇÃO MACAENSE

“O assunto de que se ocupará esta crônica, já era de nosso conhecimento há algum tempo, por um artigo do padre Próspero Jameau, publicado em “O Lynce” de 7 de janeiro de 1905.

Malgrado a riqueza de detalhes com que o padre Jameau ornou, no dito artigo, a narrativa da tribulações sofridas pela viuva Maria dos Santos e Oliveira, há quase trezentos anos atrás, consideramos, a primeira vista, tal narrativa apreciável, apenas, sob o ponto de vista literário.

Jamais quizemos considerar qualqeur laivo de veracidade nos fatos que o sacerdote e então pároco de Macáe, alinhou no já referido “O Lynce” sob o título “Tradição Macahense – Uma heroína”. Todavia, tempos após, lemos o mesmo fato, a obra mestra do mestr dr. Augusto de Carvalho.

Embora o grande historiador de Macaé não assevere ser realidade, fato concreto, a aventura vivida pela pobre vioúva, dizendo simplesmente que a tradição passa como certa, embora isso, repetimos, tal é o respieto que nos merece a figura ímpar do dr. Augusto de Carvalho que não hesitamos em contar essa aventura aos pacientes leitures dêste livro, sempre e prudentemente como convém a um arremêdo de historiador, não garantindo a autencidiade, por falta de uma prova definitiva e convincente, ou seja, por falta de documentos comprobatórios.

Vamos, porém, ao fato, ou melhor, a essa tradição macaense, apoiados no artigo do padre Jameau.

* * *

Vivia em 1683, em uma tôsca casinha de sapê edificada às margens do Macaé, prósimo à sua foz, dentro do atual perímetro urbano de nossa terra, uma viúva de nome Maria dos Santos e Oliveira, em companhia de seu único filho.

Êste, de nome João, “ainda jovem mas muito ativo e trabalhador… se ocupava na lavoura ou na pescaria, de sociedade com os índios goitacazes, primeiros povoadores dêste lugar e os mais ativos coorperadores nos estabelecimentos e lavouras dos padres jesuitas”.

Malgrado a carência de recursos, viviam mãe e filho felizes no local, confiantes na amizade dos padres, bem como na dos índios “que se mostravam amigos leais e visinhos dedicados”.

Certa noite, porém, “em que a luz espargia a sua prateada luz por sôbre o morro, onde erguia-se, envolvida em seu alvo manto de cal, a modesta capela dedicada a Nossa Senhora SantÁna de Macaé”, o rapaz comunicou à mãe a intenção de, com tão boa noite e com o vento favorável, ir pescar em alto mar com dois índios amigos.

Ante a objeção da mãe quanto à presença de piratas holandeses na costa, desde Cabo Frio até a barra do Paraíba, ante o seu pedido para que evitasse sair ao mar, desistiu o rapaz, em parte, de seu intento, limitando-se a sair com os seus amigos índios para uma pescaria rio acima.

* * *

Às duas da madrugada, em plena escuridão, um barco “pilotado por dez homens aproou bem em frente da humilde choupana onde morava a pobre viúva”. Enquanto dois dos tripulantes dicavam montando guarda ao barco, os demais dirigiram-se à choupana, cercando-a. Destacou-se do grupo aquêle que parecia ser o chefe e bateu à porta. A pobre viúva, mal desperta, alarmada com a ausência do filho, perguntou:

” – Quem é?”

” – De paz, respondeu o desconhecido”.

O sotaque e o tom da voz de seu interlocutor, todavia, fizeram nascer suspseitas à mulher que retrucou não pdoer abrir, por estar sòzinha.

Ante a recusa da viúva, o bando de homens precipitou-se sôbre a porta e, a fôrça de golpes e empurrões, puseram-na abaixo. Entraram todos no tôsca habitação e “cercaram a infeliz senhora que, aterrada, tremia como fôlha agitada pelo vento”.

O interrogatório dos piratas, pois tal o eram, buscava saber o número de padres que residiam no cimo do morro, se possuiam muito pessoal e muitas armas e, o que lhes era talvez mais importante, se eram ricos.

Já mais calma, respondeu-lhes a viúva:

– “O pessoal é bastante numeroso e os advirto que ao primeor toque de alarma, todos os índios empregados nas lavouras estarão ao lado dos seus patrões e benfeitores para os defenderem. Quanto ao resto, não sei”.

Vendo que dessa forma não conseguiriam as ifnormações desejadas,após confabularem decidiram os piratas que d. Maria os guiasse até o alto do morro, com a solene promessa: “uma vez chegados ali, te deixaremos livre e se a prêsa fôr rendosa, serás generosamente recompensada”.

O sentimento de fidelidade era, porém, mais forte na pobre mulher que o mêdo que a possuia.

Novamente recusou atender, protestando que não iria jaudar pessoas que, além de não serem de sua religião, mostravam-se inimigos de sua terra.

“- É sua última decisão?” – perguntou o chefe.

“- È.” – retrucou a viúva.

“- Pois bem, desde já você é nossa prisioneira… Marujos, levai esta mulher para a lancha!…”

“Ao ouvir essa ordem, D. Maria lembrando-se do filho amado qu eia deixar, suplicou”:

“- Pelo amor de Deus, não me separeis de meu filho!”

“- Deus! – chacoteou o estrangeiro = Somos nós os representantes de Deus, que estamos navegando nestas paragens… Hás de nos acompanhar para a Europa onde reconhecerás e adotarás a nossa religião, que é verdadeira”.

“E os marinhieros arrastaram a infeiz até o barco e, em seguida, voltaram para saquear a pobre choupana e levar todos os mantimentos e criação”.

* * *

Durante algumas semanas, continuaram os piratas cruzando o mar, até que “carregado de ricos espólios” decidiu o seu comandante haver chegado a hora de retornarem á Europa.

O sofirmento de D. Maria dos Santos e Oliveira chegou ao máximo quando, em certa manhã, o navio atingiu a altura de Macaé.

“Ao aivstar a Ilha de Sant´Ana e, ao longe, o morro onde erguia-s a branca capelinha”, não resistiu e chorou.

Chorou pela primera vez desde que fôra fieta prisioneira. Seus soluços atrairam a atenção do comandante “que tinha presenciado a pungente dôr da pobre mulher”.

“- Por que tantos chôros, minha senhora? Nâo tem sido bem tratada a meu bordo?”

Ante essas palavras e ante a visão das praias tão suas conhecidas e que já via afastarem-se, talvez para sempre, D. Maria “Num impulso de profundo desespêro e de afonia mortal”, caiu de joelhos aos pés do holandês e suplicou-lhe:
“- Senhor! … Senhor!… pelo nome de vossa mães, tende piedade de mim; não me afasteis de minha Pátria, não me spareis de meu filho e de todos aquêles que tenho amado”…”

“Comovido por essas palavras que lhe relembravam a mãe e a pátria ausentes, por um dêsses impulsos de humanidade qu etanto honram, em tôdas as épocas, o coração humano, o estrangeiro murmurou:
“- Pois bem, tenho aqui uma lancha tomada em S. João da Barra e como não posso mudar a minha rota, consente a senhora em embarcar nela sòzinha?”.

A resposta da prisioneira veio pronta e afirmativa. Sem cogitar nos perigos a que ficava exposta, numa pequena barca, sem recursos e só, em pleno mar, acietou a oferta.

O comandante “mandou arriar a dita lancha e fe embarcar a prisioneira, dando-lhe a liberdade e confiando o resto à sua boa estrêla”.

A viúva agradeceu ao comandante, encomendou-se à porteção de N.S. de Sant´Ana, de que era devotíssima e, aos poucos, ficando só na noite que caía, viu afastar-se o navio pirata.

* * *

Logo o céu começou a escurecer, ao tempo em que se acumulavam grossas e escuras nuvens. A leve brisa transmudou-se em vento firme, forte e rijo. A tempestade era certa.

A frágil embarcação começou a ser sacudida pelas ondas gigantescas que agitavam a superfície do mar, tão calmo ainda há pouco. E a chuva não se fez esperar: desceu forte e impiedosamente.

Aterrrizada, vendo a morte próxima e a cada momento envolta nas ondas que faziam do barco um verdadeiro brinquedo ou nos relâmpagos que rasgavam o azeviche do céu, D. Maria procurou refúgio sob uma coberta da proa.

O desespêro a assaltá-la, pessoa extremamente religiosa que era, principiou a rezar. E na exacerbação dêsse desespêro, “no firmamento negro, pareceu-lhe estampar-se nítida e luminosa a imagem de Nossa Senhora Sant´Ana”. Entregou-se à misericórdia e á proteção da ocupante do alto-mór da Capelinha do morro, perdeu as fôrças e desmaiou.

* * *

Deixemos, porém, que Próspero Jameau conclua a história da pobre viúva.

  

“No dia seguinte, ao acordar do seu longo e nervoso sono, pareceu a D. Maria que o barco tinha parado e, coisa que muito estranhou, reconheceu, não longe dela, o melancólico canto do saviá das praias, que o modulava pausadamente como um hino ao Criador. Ainda receiosa abriu os olhos e saiu da coberta…”

“O céu estava límpido e o sol subindo vagarosametne na abóbada azulada, iluminava tôda a paisagem: Ilhas, rochedos, praia”.

“Um grito de alegria e de reconhecimento escapou-lhe do peito quando viu que a lancha estava a sêco na praia e esta praia era a Praia da Concha, a amis mimosa da nascente Macaé”.

“Louca de felicidade, saltou à beira, ajoelhou-se e veijou o chão e levantando as mãos ao céu rogou: “OPh! Santa. Oh! Mãe. Oh! Salvadora minha. Slave! Oh! Bendita praia. Oh! Macaé, terra querida, como te amo!…”

 Tenho em mãos um livro raro. Raro por ser “um livro escrito por um macaense para os macaenses, sejam êles os que aqui residem na felicidade de sua paz e de sua beleza invejáveis, sejam aquêles que por contingência da vida, daqui se afastaram, ganhando o pão de cada dia no labor ingente de outros centros, sempre saudosos de um mergulho nas águas da Imbetiba ou de um bate-papo amigo nos cafés da rua Direita.

Não é um livro definitivo e, o que mais importa, não pretende sê-lo.

É mais a consequência de um desejo irresistível e incontrolável, qual seja o de levar para o papel, em letras impressas, algo daquilo de curioso e interessante que o autor viu ou soube a respeito do passado de sua terra, onde nasceram, para cada um dos macaenses, tantas alegrias e tantas tristezas.
É, também, um preito de amor à terra natal a que está ligado por tão grandes laços, à terra para a qual não encontrou e, está certo, não encontrará rival em todo o mundo.”

Macaense, confirmo a fala nada exagerada do caro A.A. Parada (Antônio Alvarez Parada) no prefácio de seu nobre livro “Coisas e Gente da Velha Macaé”. Declara ainda, alegando ser “uma obra modesta com a qual pretende o autor iniciar um ciclo de livros sôbre as coisas macaenses, sempre com um único objetivo: “Conhece-te a ti mesmo” . Dedicatória do livro: à memória de meu pai e de minha irmã Pilar. A minha mãe. A minha espôsa. Este é o autor, carinhosamente conhecido como professor Tonito.

 Fonte: Parada, Antônio Alvarez – Coisas e Gente da Velha Macaé (Crônicas Históricas, Edigraf – São Paulo – 1958)
Croquis da capa de JoãoPaulo Cantuária – Texto ilustrado pelo autor

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