A.A. Parada

 

farol-macae.jpg

Minha Terra

                                                           Alcindo Brito

A terra em que eu nasci é uma cidade linda!

É a cidade mais linda que há no mundo!

Cidade maravilhosa, cheia de pescadores,

parece que emergiu por encanto das profundezas do mar,

e ficou na praia quente

a se espreguiçar…

a se espreguiçar…

 

Cidade cheia de riquezas,

és pobre porque és consciente e conformada.

Os teus filhos não são ambiciosos

porque, acostumados a fitar a imensidão do mar,

aprenderam, vendo a imensidade,

que a riqueza material de uma cidade

é coisa pequena demais

para ser coisa que se deva ambicionar!

 

Minha terra, és rica porque não tens ambição!

Vives no teu sossêgo sem alarde do que és,

sem atraires para elas essa gente sem coração

capaz de abandonar-te sem saudade

depois de ter fartado de gozar-te,

minha cidade!

Gente incapaz de sentir

a tua profunda espiritualidade!

 

Há quantos anos não te vejo,

pátria da minha infância!

A tua lembrança é uma tela de cinema,

a casinha pensativa que o vovô deixou para minha mãe,

o gradil quebrado do jardim em que eu brinquei,

a maleta de meus livros pendurada atrás da porta da sala de jantar

e a escola no fim da rua;

E a rua muito comprida de paralelepípedos mal dispostos

em que eu soltava papagaios para as bandas do mar

e dois burros resignados arrastavam um bonde barulhento sôbre os trilhos estreitos…

 

E a cabra cega na praia…

(Tôda vez que eu passava na Alfândega indo p´ra Imbetiba,

o guarda, um soldado, armado de carabina,

gritava como se eu fôsse um contrabandista:

– Quem vem lá? – e eu respondia como a mamãe me ensinara:

– É de paz!

– Passe de largo!

(Eu dava uma corridazinha…)

 

A praia… Velas de pescadores…

Aves marinhas escrevendo negras reticências minúsculas na

[ tarde azul e grande…

O horizonte longe… O céu azul… O mar sem fim…

 

Homens rudes que chegam com os barcos transbordando de

[peixes

e a gente pobre que aguarda a chegada dos barcos…

Eu faço estes versos cheio de saudade

de ti, minha cidade!

Eu ainda vejo o teu sol vermelho tomando banho muito cêdo

[em alto mar!

 

Dentro de minha sensibilidade

tu me apareces cada vez mais linda,

Macaé, miha terra, pátria da minha infância,

Neste momento eu te vejo colorida,

minha suavíssima cidade!

Tôda vestida com as lindas côres de um arco-ris

num cair de tarde!

 

Certamente AA Parada acompanha a vida de Macaé e surpreso não está com as mudanças na terra natal, tantos as boas quantos as nem tanto pois que grande conhecedor do espírito humano sabe que estes privilégios da terra não atingiram somente a beleza natural desta terra que aberta está as milhares de migrações sempre acolhidas com carinho, independente dos interesses que aqui se façam.
O livro tem crônicas interessantes como a origem através de “Jean de Léry a primeira referência ao nome de Macaé” , “Gondomar e a Fundação de Macaé”, “Os Sete Capitães”, “A Fortificação da Cidade” e até a descoberta por Saint-Hilaire, a 14 de setembro de 1817, junto “a um grande lago de água salgada chamado Lagoa da Sica ou de Boassica, apenas separada do oceano por estreita faixa de terra arenosa e margeada de grandes florestas”.

“Logo no início do capítulo e em que se ocupa de nossa terra, Saint-Hilaire faz uma referência à origem do nome de Macaé, escrevendo textualmente: “ainda em nossos dias, os habitantes do Paraguai chamam “macaé”, em língua guarani, a uma espécie de arara, inteiramente verde, existente em seus campos”. E, em nota a parte, acrescenta: “não posso ter a menor dúvida sôbre a etimologia a que refiro aqui, porquanto me foi indicada nas Missões do Uruguai por um homem competente, que vivera muito tempo no Paraguai e que conhecia perfeitamente a língua guarani”.

Entra, assim, Saint-Hilaire no rol dos que interpretaram erradamente a etimologia de “Macaé”, preferindo dá-la como “arara verde”, da mesma forma que Batista Caetano, citado por Teixeira de Mello, a traduz por “céu enxuto” e outros por “rio dos bagres”, quando hoje, todos os tupinólogos estão acordes em que Macaé significa “a macaba dôce” ou “Côco-dôce”.

Parece que Saint-Hilaire andou comendo Côco-dôce e se fartou.

Ah, Macaé sendo ‘arara-verde’ ou ‘côco-dôce’, que importa, importa que ela é linda com suas serras, rios, mares, entardecer, nascer de sol, ventos, mares e belezas mil onde o macaense, seja ele da terra ou apenas por ela peregrino, vive um paraíso encantado, perfeição divina.

Fonte: Parada, Antônio Alvarez – Coisas e Gente da Velha Macaé (Crônicas Históricas, Edigraf – São Paulo – 1958)
Croquis da capa de JoãoPaulo Cantuária – Texto ilustrado pelo autor

 

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